Morar fora do Brasil: quando a mudança externa ativa processos internos que pedem escuta

Nos últimos 10 anos venho tendo a oportunidade de atender brasileiros que moram no exterior. Além disso, alguns dos meus pacientes mudaram de residência e foram viver em outro país enquanto estavam em psicoterapia, o que me permitiu acompanha-los durante essa nova, fascinante e também desafiadora fase de se adaptar a morar fora do Brasil.

Morar fora do Brasil costuma começar como um projeto cheio de imagens: liberdade, crescimento, novas possibilidades. Há um entusiasmo inicial, uma sensação de estar construindo algo importante para a própria vida. A maioria das pessoas que atendi sabiam que nem tudo seria flores e que os desafios da nova jornada logo estariam presentes em suas vidas.

Mas o que muitos não esperavam era uma mobilização emocional tão grande. “Parece que eu tinha uma bagagem que não reconhecia como minha e estar em outro país me fez entrar em contato com ela”, me disse uma pessoa que estava há 6 meses morando em um país europeu.

Outros me contaram que começaram a sonhar diferente (aqui falo dos sonhos noturnos). A temática dos sonhos havia mudado e sentiam que estavam lidando com questões mais profundas. Sonhos mais intensos. Relatam sonhos com a casa da infância, com pessoas do passado, com ruas que não existem mais, com viagens que nunca acabam, malas, perdas, desencontros, almoço de família, reunião de amigos, voltar a escola, objetos esquecidos, caminhos que não levam a lugar nenhum.

Esses sonhos não significam desejo de voltar atrás. Eles expressam a necessidade de elaborar perdas, de reconhecer o que ficou para trás, o que ainda dói ou o que faz falta.

O impacto emocional de morar fora do Brasil

Toda mudança geográfica profunda é também uma mudança psíquica.
Ao sair do país de origem, não deixamos apenas um território externo. Deixamos um campo simbólico inteiro: língua, gestos, códigos afetivos, comida, hábitos, formas de pertencimento.

Algo em nós, mais profundo, sente isso, mesmo quando a consciência tenta minimizar.

Na psicologia profunda, compreendemos que o ser humano não se organiza apenas por decisões racionais, mas por imagens internas. E quando essas imagens são abaladas, as emoções tendem a aflorar com intensidade. Para os mais atentos, os sonhos também refletem isso.

É como se a alma dissesse: “Algo importante está acontecendo. Precisamos falar sobre isso.” É uma pena que muita gente ignora esse chamado.

O luto migratório: sim, ele existe

Morar fora do seu país de origem envolve um tipo específico de luto: o luto migratório. Vivemos o luto não apenas quando perdemos alguém que amamos. Vivenciamos o luto a cada perda significativa que experimentamos. Mesmo que morar fora do Brasil seja o maior sonho da vida de uma pessoa, e que a alegria transborde ao conseguir realizar esse desejo, algum luto será vivido, porque essa tão desejada mudança também envolve algumas perdas.


O luto a que me refiro não diz respeito apenas ao que foi perdido externamente, mas ao que deixou de ser vivido, ao que ficou suspenso, ao que não pôde ser integrado a partir da mudança feita.

Morar fora envolve perdas profundas como, por exemplo:

  • Perda da língua falada sem esforço
  • Perda da referência cultural imediata
  • Perda da rede afetiva espontânea
  • Perda do sentimento de familiaridade com o mundo
  • Perda de uma versão anterior de si mesmo

Esse luto raramente é reconhecido socialmente. Afinal, você escolheu ir. Você está “melhor”. Você deveria estar feliz. E assim, o sofrimento é empurrado para dentro.

Na psicologia profunda, sabemos que aquilo que não é simbolizado, aquilo que não encontra espaço para expressão, retorna como sintoma. O que não encontra palavra vira ansiedade, tristeza, irritação constante, sensação de vazio ou cansaço existencial.

“Não sou mais de lá, mas também não sou daqui”

Um dos sofrimentos mais frequentes entre brasileiros que moram fora é algo que poderíamos chamar de crise de identidade: você muda, mas nem sempre percebe como. Muda o jeito de pensar, de se posicionar, de se expressar. Aos poucos, você já não se reconhece totalmente quando volta ao Brasil. E, ao mesmo tempo, não se sente completamente pertencente ao novo país.

Surge um estado intermediário: “entre-mundos”.

Na Psicologia Analítica, esse espaço intermediário é conhecido como estado liminar, uma fase em que a identidade antiga já não serve, mas a nova ainda não se consolidou. Esse estado pode ser profundamente transformador, mas também extremamente angustiante quando vivido sozinho.

Você pode se pegar pensando:

  • “Eu não sei mais quem eu sou”
  • “Parece que estou suspenso(a) no tempo”
  • “Nada é exatamente meu”
  • “Sinto saudade de algo que nem sei mais o que é”

Esses sentimentos não indicam fraqueza. Eles indicam que um processo psíquico profundo está em andamento. Quando isso ocorre, é comum os sonhos virem carregados de simbolismo que mobilizam ainda mais as emoções do sonhador.

De acordo com Carl Jung, compreendemos os sonhos como expressões do inconsciente buscando equilíbrio. Quando a identidade consciente vai se modificando, como costuma acontecer em processos migratórios, os sonhos assumem a tarefa de reorganizar o sentido.

O problema surge quando essas imagens não encontram espaço de escuta.

A solidão que aparece nos sonhos

Mesmo pessoas que se adaptaram bem ao novo país costumam sonhar com solidão, janelas fechadas, quartos vazios, ruas desertas, noites longas, ruas desertas.

Essa solidão onírica não significa que você esteja isolado socialmente. Ela aponta para algo mais sutil: a solidão de não ser totalmente visto em sua profundidade.

Uma pessoa me disse: “Eu conheço muitas pessoas aqui, mas me sinto sozinho.”

Essa solidão não é quantitativa. Ela é qualitativa. É a solidão de não poder falar na própria língua emocional. De precisar traduzir não só palavras, mas gestos, humor, referências, afetos.
É como se você sentisse que uma parte essencial de você fica sempre sem tradução.

Com o tempo, essa adaptação constante pode gerar:

  • Exaustão emocional
  • Sensação de artificialidade
  • Distanciamento afetivo
  • Dificuldade de se sentir verdadeiramente visto(a)

Na maioria das vezes isso acontece de forma inconsciente, ou seja, você não consegue entendem o que está acontecendo com você, apenas sente os efeitos emocionais disso. Somos seres simbólicos e precisamos ser reconhecidos em nossa totalidade, não basta apenas sermos funcionais.

Quando isso não acontece, algo se recolhe por dentro. Os sonhos, então, tornam-se o espaço onde a “alma” volta a falar sua “língua” original.

Quando o corpo começa a falar

Muitas pessoas que moram fora procuram atendimento psicológico não porque “querem”, mas porque sentem que precisam, já que o corpo começa a sinalizar:

  • Ansiedade persistente
  • Insônia ou sono agitado
  • Tristeza sem causa aparente
  • Irritabilidade
  • Crises de choro
  • Falta de energia
  • Sintomas físicos sem explicação clara, entre outros.

Algo importante, e que é pouco dito, é que morar fora não cria, necessariamente, o problema em si. Na verdade, o que acontece, é que morar fora do país de origem pode ativar conteúdos psíquicos que já existiam, mas que talvez estivessem adormecidos. Grandes mudanças na nossa vida podem provocar isso, e morar fora do país de origem é uma delas.

A mudança pode romper defesas antigas. O afastamento da família, da cultura e das rotinas conhecidas pode reativar:

  • Feridas de abandono
  • Questões de pertencimento
  • Sentimentos de inadequação
  • Conflitos familiares não elaborados
  • Dúvidas existenciais profundas

Isso pode assustar. É comum as pessoas perguntarem: “Por que agora?”, “Por que comigo?”.

Porque a psique responde a contextos simbólicos. E morar fora é, simbolicamente, uma grande travessia.

A travessia como chamado psíquico

Grandes mudanças externas frequentemente correspondem a chamados internos. Não necessariamente conscientes. A travessia geográfica pode ser também uma travessia psíquica:

  • Do conhecido para o desconhecido
  • Do adaptado para o autêntico
  • Do personagem para algo mais verdadeiro

Mas toda travessia exige acompanhamento. Sem isso, ela pode se transformar em sofrimento. E, ao longo do tempo, o saldo por falta de escuta e cuidado com esse sofrimento pode gerar, no mínimo, adoecimento.

Buscar atendimento psicológico nesse momento não significa desistir da vida no exterior, ou que tudo deu errado, ou que você está louco(a). (Sim, infelizmente, ainda tem quem pense que psicoterapia é para loucos). Muitas vezes, significa aprender a sustentar a nova vida e tudo o que ela mobiliza de forma mais consciente e integrada, buscando compreender o que está sendo ativado internamente com essa mudança.

Psicoterapia em português: um retorno à casa simbólica

Para muitos brasileiros que moram fora, falar com um psicólogo brasileiro é mais do que uma escolha prática. É uma necessidade psíquica. A língua materna não é apenas comunicação, ela é memória, afeto, história e move muitas questões inconscientes.

Na psicoterapia em português:

  • Emoções emergem com mais profundidade
  • Sonhos podem ser compartilhados e ganham sentido
  • Histórias pessoais podem ser narradas sem tradução
  • A psique encontra um território familiar

Em um certo aspecto, é como voltar, simbolicamente, para casa, mesmo estando longe.

Você não está “fraco(a)”. Você está atravessando algo grande.

Umas das falas que mais ouvi das pessoas que moram fora é: “eu achei que seria mais forte para lidar com o que sinto”.

Não se trata de ser forte ou fraco. Quando lidamos com algo grande, seja morar fora do Brasil, terminar um relacionamento, uma demissão inesperada, a morte de alguém querido, um diagnóstico grave, etc… muito em nós será mobilizado para lidar essa nova etapa da nossa jornada. Nosso Ego sempre quer que tudo ocorra conforme o planejado, mas a vida é mais muito mais complexa. Nós somos mais complexos.

Se você chegou até aqui sentindo que o texto descreve, de certa forma, o que você vive, talvez seja hora de escutar esse chamado. Não porque algo está errado com você. Mas porque algo importante está pedindo atenção.

A psicologia profunda não busca “consertar” pessoas. Ela ajuda, entre outras coisas, a compreender o sentido do sofrimento, integrá-lo e transformá-lo em consciência. E então, podemos dizer que algo foi integrado e superado.

O que eu aprendi com as pessoas que atendi/atendo é que morar fora pode ser uma experiência riquíssima, mas ela cobra um preço emocional quando vivida sem espaço de elaboração.

Cuidar da saúde mental enquanto se vive no exterior não é luxo. É busca de apoio e sinal de maturidade psíquica. É poder dizer: “Isso está difícil”, “Eu mudei”, “Algo em mim precisa ser ouvido”. E encontrar um espaço onde isso seja acolhido com profundidade, ética e respeito.

Se você se sentiu compreendido(a) ao ler este texto, talvez não seja coincidência. Talvez seja o momento de cuidar de si com mais atenção.

A psicoterapia pode ser um espaço de escuta, elaboração e reencontro, mesmo à distância.

Você não precisa atravessar isso sozinho(a).

Sobre a autora

Giane é psicóloga junguiana com mais de 20 anos de experiência em interpretação dos sonhos. Apaixonada por simbolismo e autoconhecimento.

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