Sonhos: por que ainda os ignoramos e o que perdemos com isso

Há algo de curioso, e talvez um pouco trágico, na maneira como tratamos os sonhos. Dormimos, sonhamos, acordamos… e seguimos o dia como se nada tivesse acontecido. Um café, uma lista de tarefas, mensagens para responder. O sonho fica para trás, dissolvendo-se como névoa ao sol da manhã. Quando muito, vira uma anedota rápida: “Sonhei algo estranho hoje”. E pronto.

Não é raro ouvir frases como: “Foi só coisa da cabeça”, “não significa nada”, ou ainda “sonho é bagunça do cérebro”. Em uma cultura orientada para resultados, produtividade e controle, os sonhos parecem inúteis: não resolvem problemas concretos, não rendem dinheiro, não organizam a agenda. Pelo contrário, às vezes confundem, inquietam, desestabilizam.

E, no entanto, eles continuam vindo. Todas as noites. Mesmo quando não lembramos. Mesmo quando não queremos. Mesmo que você não se lembre dos seus sonhos, eles te visitam todas as noites.

Ao longo de mais de duas décadas de prática clínica, trabalhando com sonhos a partir da psicologia analítica, aprendi algo simples e profundo: os sonhos não precisam ser defendidos nem romantizados. Eles se impõem por si. O que talvez precise ser revisto é a nossa postura diante deles.

O sonho como linguagem esquecida

Imagine alguém que vive em um país estrangeiro, cercado por pessoas que falam uma língua que ele não compreende. Se ele decidir não interagir, aos poucos, ele aprende a ignorar aquelas vozes. Elas continuam falando, mas ele deixa de escutar. Algo semelhante acontece com os sonhos.

Para a psicologia junguiana, o sonho é uma linguagem simbólica produzida pela psique. Não é um código secreto a ser decifrado mecanicamente, nem uma mensagem literal. É uma forma de expressão como a poesia, a música ou a pintura. Exige escuta, tempo e disposição para não entender tudo de imediato.

Carl Gustav Jung observou que o inconsciente não fala a língua da razão lógica. Ele se expressa por imagens, cenas, personagens, afetos. Quando tentamos reduzir o sonho a uma explicação rápida, do tipo “isso significa aquilo” , corremos o risco de empobrecer aquilo que, por natureza, é vivo e ambíguo.

Talvez uma das razões pelas quais os sonhos sejam tão desvalorizados hoje seja justamente essa: não sabemos mais escutar o que não se explica rapidamente. Algumas vezes eu sinto isso na prática clínica. A pessoa traz um sonho riquíssimo em conteúdo simbólico, não consegue fazer associações pessoais porque está muito desconectada de seus próprios valores e da sua própria história e quer uma interpretação rápida, um significado rápido para o sonho. Na verdade, precisamos explorar o sonho e não tentar reduzi-lo a um significado pontual.

Entre o ceticismo e a romantização

Curiosamente, o desprezo pelos sonhos costuma caminhar lado a lado com o seu oposto: a idealização ingênua. De um lado, há quem afirme que sonho não significa nada. De outro, quem acredita que todo sonho é uma mensagem elevada, espiritual, profética ou literal.

Ambas as posições, embora opostas, têm algo em comum: evitam o trabalho psicológico real que o sonho propõe.

Na clínica, vejo frequentemente pessoas que chegam frustradas porque “o sonho não se realizou”, ou ansiosas porque acreditam que ele prevê algo terrível. Outras chegam quase pedindo desculpas por sonhar: “Sei que é bobagem, mas sonhei isso…”

A perspectiva junguiana não alimenta nem o ceticismo raso, nem a fantasia inflada. O sonho não está ali para prever o futuro nem para agradar o ego. Ele também não surge por acaso, como mero ruído cerebral. Ele emerge de um nível profundo da psique que busca equilíbrio, compensação e ampliação da consciência.

Isso não o torna confortável. Muitas vezes, pelo contrário.

O sonho como espelho

Há sonhos que encantam. Outros assustam. Alguns parecem sem sentido. Outros são dolorosamente claros.

Uma pessoa pode sonhar repetidamente que está perdida, atrasada, sem conseguir chegar a lugar algum. Outra sonha que a casa em que vive está caindo aos pedaços. Alguém sonha com um antigo relacionamento que julgava superado. Outro sonha com morte, perseguição, queda.

É tentador afastar essas imagens. Afinal, quem gosta de ser confrontado enquanto dorme?

Mas o sonho, na maioria das vezes, não vem confirmar o que já sabemos conscientemente. Ele vem mostrar o que está sendo ignorado, reprimido ou unilateralmente vivido. Jung chamou isso de função compensatória do sonho.

Quando a vida consciente se torna excessivamente controlada, racional ou adaptada às expectativas externas, o sonho pode se tornar caótico, emocional ou primitivo. Quando a pessoa se identifica demais com uma imagem idealizada de si, o sonho pode apresentar figuras sombrias, ridículas ou desconcertantes.

Não como punição. Mas como correção de rota.

Por que os sonhos parecem “sem sentido”?

Muitas pessoas dizem: “Meus sonhos não fazem sentido algum”. Essa sensação é compreensível e, de certo modo, verdadeira.

O sonho não faz sentido no sentido lógico, linear, causal. Ele faz sentido simbólico. E isso exige outro tipo de escuta.

É como entrar em uma galeria de arte esperando um manual técnico. Ou ouvir uma música esperando instruções práticas. O erro não está na obra, mas na expectativa.

Além disso, há sonhos que realmente são mais fragmentados, especialmente em períodos de cansaço extremo, uso de medicações, privação de sono ou sobrecarga emocional. Nem todo sonho será profundo ou transformador. E tudo bem.

O problema começa quando, diante dessa diversidade, escolhemos a saída mais simples: ignorar tudo.

O preço de ignorar os sonhos

Ignorar os sonhos não é um pecado psicológico. É apenas uma escolha, geralmente inconsciente. Mas toda escolha tem consequências.

Quando os sonhos são sistematicamente desconsiderados, a comunicação entre consciência e inconsciente se empobrece. A pessoa pode até funcionar bem por um tempo, mas tende a perder contato com nuances importantes da própria vida psíquica.

Isso pode se manifestar como:

  • sensação de vazio sem causa aparente
  • repetição de padrões de relacionamento
  • decisões que parecem “certas”, mas não trazem vitalidade
  • sintomas físicos ou emocionais sem explicação clara
  • perda de sentido ou criatividade

Não porque o sonho resolveria tudo, mas porque ele sinaliza aquilo que precisa ser olhado.

Na prática clínica, não é raro que um sonho, trabalhado com cuidado ao longo do tempo, ajude a pessoa a perceber algo que estava fora do campo da consciência, uma necessidade não reconhecida, um luto não elaborado, um potencial não vivido.

Nada mágico. Nada instantâneo. Mas profundamente humano.

Sonhos não pedem fé, pedem curiosidade

Um equívoco comum é achar que, para trabalhar com sonhos, é preciso “acreditar” neles. Não é.

O sonho não exige fé. Exige curiosidade honesta.

É possível abordar um sonho com postura investigativa, sem misticismo, sem crença prévia. Perguntar-se: O que essa imagem provoca em mim? Onde isso aparece na minha vida? O que essa cena me lembra?

Jung enfatizava que o sentido do sonho é sempre pessoal. Dicionários simbólicos podem ajudar, mas não substituem a relação viva do sonhador com suas próprias imagens.

Sonhar com água, por exemplo, não significa a mesma coisa para todos. Para alguém, pode remeter a acolhimento; para outro, a afogamento; para outro ainda, a liberdade.

O símbolo vive da experiência, não da definição.

O sonho no cotidiano: pequenas escutas possíveis

Valorizar os sonhos não significa analisá-los obsessivamente, nem transformá-los em centro da vida. Significa dar-lhes um lugar.

Algo simples, como anotar algumas linhas ao acordar, mesmo que sejam apenas fragmentos, sensações ou cores, isso já cria uma atitude de escuta. Não para entender tudo, mas para reconhecer: algo aconteceu.

Com o tempo, essa postura modifica a relação consigo mesmo. A pessoa começa a perceber padrões, repetições, variações. O sonho deixa de ser um evento isolado e passa a ser parte de um diálogo.

E talvez esse seja um dos maiores ganhos: a sensação de que a vida psíquica não se resume ao que controlamos conscientemente.

Para quem já valoriza os sonhos, e para quem ainda não

Este texto não pretende convencer ninguém. Sonhos não precisam de defensores apaixonados, nem de convertidos relutantes.

Para quem já sente que os sonhos têm valor, talvez ele funcione como um reforço tranquilo: não é preciso exagerar, nem provar nada a ninguém. Basta continuar escutando.

Para quem nunca deu muita importância, talvez fique apenas uma pergunta, e isso já é suficiente: e se os sonhos não forem inúteis?

A psicologia profunda não oferece respostas prontas. Ela convida a uma atitude. Uma forma de estar consigo mesmo que reconhece que a psique é mais ampla, mais antiga e mais complexa do que o ego gostaria de admitir.

Os sonhos continuam vindo. Todas as noites. Silenciosos, estranhos, insistentes.

Ignorá-los é possível. Escutá-los também.

E entre uma coisa e outra, talvez se esconda uma vida um pouco mais viva, um pouco mais inteira. Não porque entendemos tudo, mas porque aceitamos não entender de imediato.

Se há algo que os sonhos ensinam, é isso: o sentido não se impõe; ele se revela aos poucos, a quem aprende a escutar.

Bons sonhos para você!

Sobre a autora

Giane é psicóloga junguiana com mais de 20 anos de experiência em interpretação dos sonhos. Apaixonada por simbolismo e autoconhecimento.

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