Vida Simbólica: por que sem ela a alma adoece e a vida perde sentido

Pense na última vez que você fez algo só porque tinha que ser feito. Não porque queria, não porque tinha um sentido mais profundo, fez simplesmente porque estava na agenda, porque era esperado, porque a vida seguia e você junto com ela. Acordou, cumpriu, dormiu. Repetiu. Há dias assim, semanas, às vezes anos inteiros.

Agora pense: quando foi a última vez que algo te tocou de verdade? Não emocionou no sentido de fazer você chorar como num filme, mas te tocou, no sentido de te fazer sentir que aquilo dizia algo sobre você, que havia ali uma camada de significado que ia além do evento em si? Pode ser uma música que chegou na hora certa. Um sonho que ficou ecoando por dias. Uma conversa que não saiu da sua cabeça. Um projeto que dá ânimo cada vez que você põe a mão na massa.

A diferença entre essas duas experiências é, no essencial, a diferença entre uma vida vivida no automático e uma vida simbólica.

Jung disse uma vez, numa conferência em 1939, algo muito interessante: “O ser humano tem uma necessidade específica de vida simbólica. Somente o símbolo é capaz de manter juntos os opostos da alma.” Ele não estava sendo poético. Estava sendo clínico, só que com uma visão de clínica que extrapolava o consultório e chegava até a estrutura da existência.

O que é, afinal, uma vida simbólica?

Melhor começarmos pelo que ela não é. Não é viver rodeado de símbolos decorativos, como uma mandala na parede, um cristal na mesa, um tattoo de ouroboros no braço. A vida simbólica não é estética, é atitude.

Viver simbolicamente significa habitar a experiência em dois planos simultaneamente: o plano literal e o plano de significado. Significa que quando algo acontece, como um encontro, uma perda, um sonho, uma crise, você não apenas registra o fato, mas você pergunta o que aquilo quer dizer. Não no sentido superstioso de procurar presságios. Mas no sentido de reconhecer que a psique está sempre falando, e que a maioria das pessoas passou a vida inteira sem aprender a língua.

O símbolo, na perspectiva junguiana, é diferente de um signo. Um signo aponta para algo conhecido: a seta aponta para a saída, a letra “A” representa um som. O símbolo, por outro lado, aponta para algo que ainda não pode ser completamente dito em palavras. É a melhor expressão possível de algo que transcende a linguagem racional. Jung escreveu nos Tipos Psicológicos: “O símbolo pressupõe sempre que a expressão escolhida é a melhor designação possível ou fórmula de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é reconhecida ou exigida.”

O símbolo é sempre um convite à relação. Ele não entrega um significado pronto. Ele pede que você entre em diálogo com ele.

Quando o símbolo some da vida

Existe uma experiência que muitas pessoas descrevem no consultório, e que raramente chega com esse nome. Ela chega disfarçada de cansaço, de falta de motivação, de sensação de que “a vida está sem sentido”, de que “falta algo mas eu não sei o quê”. A pessoa funciona bem. Ela trabalha, tem relacionamentos, boa saúde. Mas há uma espécie de opacidade sobre tudo. As coisas acontecem mas não significam nada. O cotidiano é eficiente, mas vazio de ressonância. Como se nada pudesse realmente satisfazer.

Jung tinha um nome para isso: neurose. E usava esse termo de forma bem diferente do senso comum.

Para ele, a neurose não é necessariamente um transtorno clínico grave. É o resultado de um desequilíbrio entre a consciência e o inconsciente, quando a persona (a máscara social que desenvolvemos) passa a ocupar tanto espaço que o Self, o centro mais profundo da psique, fica sem voz. Quando paramos de ouvir os símbolos que a vida e os sonhos nos trazem, a psique não desaparece. Ela insiste. Só que agora através de sintomas.

Edward Edinger, um dos grandes intérpretes de Jung, descreveu esse processo com precisão em Ego and Archetype: quando o ego se desconecta do Self, quando a consciência perde o fio que a liga à dimensão simbólica, o resultado é uma espécie de inflação ou deflação psíquica. Ou nos tornamos rígidos demais, controladores, hiperracionais. Ou nos tornamos ansiosos, sem chão, à deriva.

Observe: quando foi a última vez que você sonhou e acordou com a sensação de que aquele sonho importava? Se sua resposta é “faz tempo” ou “nunca presto atenção nos sonhos”, isso não é necessariamente um sinal de patologia, mas pode ser um indicador de que a conversa com o inconsciente foi suspensa. E o inconsciente não é paciente.

O mito que estamos vivendo sem saber

Há uma perspectiva que raramente aparece nas discussões sobre saúde mental, e que James Hillman, o fundador da psicologia arquetipica, defendia com veemência: cada um de nós está vivendo um mito. Não metaforicamente. Literalmente. Há uma narrativa arquetípica que estrutura nossa experiência, que organiza o que nos atrai e o que nos assusta, que dá forma ao nosso sofrimento e aos nossos sonhos.

O problema não é viver um mito, pois isso é inevitável, somos animais simbólicos por natureza. O problema é viver o mito inconscientemente. Quando não sabemos que estamos dentro de uma história, não podemos escolher como protagonizá-la. Ficamos repetindo os mesmos padrões, os mesmos relacionamentos, os mesmos becos sem saída, e chamamos isso de destino, de azar, de “minha personalidade”.

Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos, fala da necessidade de reconectar com o que chama de “natureza instintiva”, que é uma camada da psique que sabe, que sente, que fareja o caminho mesmo quando a mente racional está perdida. Essa natureza se comunica exatamente através de símbolos: imagens, sonhos, impulsos inexplicáveis, atrações e repulsas que parecem irracionais mas têm uma lógica própria, mais antiga do que qualquer teoria.

Quando você ignora sistematicamente essa linguagem, ela não para de falar. Ela fala mais alto. Às vezes através do corpo, como uma doença que aparece num momento de virada. Às vezes através de um acidente, uma crise de relacionamento, uma depressão que nenhum motivo racional explica completamente. Não porque a psique seja punitiva. Mas porque ela está tentando ser ouvida.

Um sonho sobre uma casa abandonada

Esse é o sonho de uma mulher de 42 anos, bem-sucedida, agenda cheia, vida que “funcionava”. Chegou ao consultório por conta de uma ansiedade difusa que não encontrava causa. No meio do processo, trouxe esse sonho:

“Eu estava numa casa muito grande, que era minha. Mas eu só morava numa parte dela , na cozinha e um quarto pequeno. As outras partes estavam fechadas, com poeira. Eu sabia que existiam, mas fazia tempo que não entrava. Num certo momento do sonho, eu abria uma dessas portas e via um jardim interno que eu havia esquecido. Havia flores, mas também havia um poço. E do poço subia uma voz.”

Vou fazer um resumo do que analisamos neste sonho. A sonhadora fez várias associações, o que nos guiou na análise deste sonho. A casa nos sonhos frequentemente representa a psique em suas diferentes partes, andares, cômodos. A sonhadora habitava apenas uma fração dela: a cozinha (o lugar do nutrimento prático, do cotidiano) e um quarto pequeno. O restante estava fechado, empoeirado, mas presente. Podemos dizer que são aspectos de si mesma que ela havia delegado ao esquecimento.

O jardim interno é uma imagem clássica do Self, aquilo que cresce quando recebe atenção, mas que pode ser negligenciado. As flores dizem que ali há vida, beleza latente. O poço é mais inquietante: vai fundo, tem água (símbolo do inconsciente), e tem uma voz.

A voz do poço é a imagem mais importante do sonho. Algo fala de um lugar que a sonhadora não visita há muito tempo. Não é ameaçador, veja que ela não foge. Mas é desconhecido.

Nas semanas seguintes, trabalhamos exatamente com essa imagem: o que havia sido trancado? Quais partes da sonhadora (a criativa, a intuitiva, a que gostava de solidão e de arte) haviam sido delegadas ao esquecimento em favor de uma identidade funcional e eficiente? A ansiedade, descobrimos, não era um mal-estar sem razão. Era a voz do poço.

A ideia que talvez você nunca tenha considerado

A maioria das pessoas acredita que a vida simbólica é algo para poucos. Algo para quem tem tempo, para artistas, para quem “acredita nessas coisas”. A vida real exige eficiência, objetividade, pragmatismo. Símbolo é coisa de poesia, não de segunda-feira de manhã.

Jung inverte esse raciocínio completamente. Para ele, a vida simbólica não é um ornamento da existência. É a condição de possibilidade de uma vida psiquicamente saudável. O ser humano não é um animal que também usa símbolos. Somos animais constitutivamente simbólicos. Nossa psique não funciona sem essa camada de significado da mesma forma que o corpo não funciona sem oxigênio.

Agora vem o paradoxo: quanto mais a cultura valoriza eficiência, produtividade e racionalidade, e quanto mais vivemos dentro de agendas e métricas e metas, mais a dimensão simbólica é suprimida. E quanto mais ela é suprimida, mais os sintomas aparecem.

Em outras palavras: a epidemia de ansiedade, depressão e vazio existencial que caracteriza as sociedades contemporâneas não é apenas um problema de neuroquímica ou de condições de trabalho. É também, em parte, o resultado de uma civilização que perdeu a vida simbólica e ainda não percebeu o que perdeu.

Marie-Louise von Franz observou que as culturas tradicionais, com seus rituais, mitos e cerimônias, ofereciam exatamente isso: estruturas coletivas que davam significado às transições da vida. O nascimento, a adolescência, o casamento, a morte, cada passagem tinha um ritual, uma narrativa simbólica que ajudava o indivíduo a atravessá-la com o inconsciente engajado, não apenas o ego. Quando essas estruturas desaparecem, cada pessoa fica sozinha diante das grandes transições.

O que fazemos? Muitas vezes, criamos substitutos. O “workaholismo” pode ser uma tentativa de dar sentido através da produção. O consumo pode ser uma tentativa de preencher com objetos o espaço que deveria ser ocupado por significado. A busca incessante por experiências pode ser uma tentativa de sentir, quando a capacidade de significar foi silenciada.

Nenhum substituto funciona por muito tempo. A psique continua insistindo.

Como trazer o símbolo de volta para a vida

Infelizmente, não existe receita. E desconfie de quem oferecer uma. Mas há atitudes que podem abrir a conversa com essa dimensão que ficou esquecida.

O primeiro é o mais simples e o mais subestimado: prestar atenção nos sonhos. Não para interpretá-los como profecias ou diagnósticos, mas para tratá-los como correspondência. Algo em você escreveu aquela imagem. O mínimo que você pode fazer é lê-la com curiosidade. Um caderno ao lado da cama. Algumas linhas ao acordar. Com o tempo, a linguagem começa a se tornar mais familiar.

O segundo é perguntar o que ressoa. Quando algo (uma música, uma paisagem, uma frase num livro, uma cena no metrô, etc) te toca de forma desproporcional ao estímulo, vale a pena pausar. Por que isso? O que em mim reconhece isso? A ressonância exagerada é frequentemente o símbolo batendo na porta.

O terceiro é cultivar pelo menos uma prática que não seja utilitária. Não precisa ser arte, nem meditação, nem nada que pareça “espiritual”. Pode ser caminhar sem destino, cozinhar sem pressa, jardinar, tocar um instrumento sem se importar com o resultado. O que importa é que haja espaço para a psique se expressar livremente, sem cobranças.

John Sanford, em Dreams: God’s Forgotten Language, argumenta que os sonhos são a linguagem mais direta que o inconsciente usa para se comunicar e que uma das grandes perdas espirituais do mundo moderno é exatamente o desprezo por essa linguagem. Não é coincidência que as tradições místicas de quase todas as culturas, desde o Egito antigo à tradição judaica, do islamismo ao xamanismo ameríndio, tenham dado aos sonhos um lugar central.

Existe alguma área da sua vida onde você sente que está apenas administrando, cumprindo, funcionando, sobrevivendo? Um relacionamento que se tornou logística. Um trabalho que virou rotina. Uma vida interior que ficou quieta demais há tempo demais?

Talvez não seja falta de vontade. Talvez não seja preguiça, nem ingratidão, nem falta de propósito. Talvez seja a voz do poço gritando para ser ouvida.

Bons sonhos para você!

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Sobre a autora

Giane é psicóloga com mais de 25 anos de experiência em atendimento clínico. Através do trabalho analítico, auxilia cada pessoa a compreender sua singularidade, superar desafios, trabalhar com áreas menos desenvolvidas da personalidade e integrar aspectos inconscientes, especialmente através da interpretação dos sonhos.

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