Inconsciente Coletivo: quando um sonho parece maior que a sua própria história

Há sonhos que parecem caber perfeitamente na nossa vida. Você sonha com o trabalho depois de uma semana difícil, com alguém com quem discutiu, com a casa da infância, com uma viagem que está planejando. Mesmo quando a história é estranha (porque sonhos quase sempre têm alguma estranheza), ainda é possível reconhecer de onde vieram certos trechos do sonho.

Mas existem trechos que não sabemos de onde vem. Você acorda e fica alguns segundos imóvel, tentando entender o que acabou de acontecer. Sonhou com uma cidade antiga que nunca visitou. Uma mulher desconhecida lhe entregava alguma coisa. Havia uma floresta, um animal que o observava, uma escada descendo para um lugar subterrâneo. Talvez uma inundação. Uma criança. Uma morte. Uma passagem estreita entre duas montanhas. Nada parece ter relação direta com o que você está vivendo. Sequer com o filme ou série que assistiu.

Há sonhos que deixam exatamente essa impressão: não parecem apenas estranhos, parecem antigos.

Foi diante de experiências desse tipo, encontradas em sonhos, fantasias, mitos, religiões, obras de arte e também na clínica, que Carl Gustav Jung chegou a uma das ideias mais ousadas da psicologia analítica: a hipótese de que nossa vida psíquica não começa inteiramente conosco.

Sob aquilo que você aprendeu, viveu, sofreu e esqueceu existiria uma camada mais profunda da psique, constituída por padrões que pertencem à experiência humana como um todo. Jung chamou essa dimensão de inconsciente coletivo. E talvez os sonhos sejam um dos lugares em que mais facilmente percebemos suas pegadas.

Quando um sonho parece maior que a sua própria história

Imagine que você esteja atravessando um período difícil no trabalho. Há tensão com seu chefe, medo de perder o emprego e uma conversa desagradável ocorrida naquela semana. Então, certa noite, você sonha que está novamente no escritório e seu chefe não permite que você entre em uma reunião.

Não seria estranho começar pelas associações pessoais. O sonho provavelmente está trabalhando com acontecimentos recentes, sentimentos de exclusão, insegurança, autoridade, reconhecimento.

Essa é uma dimensão importante do inconsciente que Jung nunca descartou: o inconsciente pessoal, formado por experiências da própria biografia, lembranças esquecidas, conflitos, emoções e conteúdos que não estão presentes na consciência naquele momento.

Agora imagine outro sonho: você atravessa um deserto à noite. Ao longe há uma construção circular. Dentro dela, uma velha mulher mantém acesa uma fogueira. Ela não fala seu nome, não lembra ninguém que você conheça e apenas diz: “Ainda não é hora de voltar.”

Você acorda profundamente emocionado. É possível que existam elementos pessoais nesse sonho também, e quase sempre existem. Mas alguma coisa nele parece ultrapassar a sua biografia imediata. É nesse ponto que começamos a nos aproximar daquilo que Jung chamava de sonhos arquetípicos: sonhos nos quais aparecem imagens e situações cuja força simbólica parece maior do que a experiência individual que as contém.

O curioso é que essas imagens podem lembrar temas encontrados em mitos separados por séculos e continentes: descidas ao mundo subterrâneo, travessias, velhos sábios, crianças ameaçadas, monstros, animais auxiliares, mortes e renascimentos, labirintos, casamentos, reis adoecidos, florestas, mares, montanhas.

O inconsciente coletivo não é uma biblioteca de símbolos prontos

Essa talvez seja uma das confusões mais frequentes sobre os arquétipos junguianos. Quando ouvimos que certos símbolos aparecem repetidamente em mitos e sonhos, é tentador imaginar que Jung estivesse dizendo que nascemos carregando imagens prontas: a mãe, o herói, a serpente, o velho sábio, a criança divina.

Não exatamente. O arquétipo não é a imagem pronta. É a estrutura psíquica que torna certas imagens possíveis.

Vou fazer uma comparação imperfeita, mas útil para compreensão: pense no modo como o corpo humano nasce preparado para determinadas experiências sem saber previamente como elas acontecerão. Há uma disposição para formar vínculos, reagir ao perigo, procurar proteção, amadurecer sexualmente, cuidar de filhos, estabelecer pertencimento.

A experiência concreta dará forma particular a essas possibilidades. Algo semelhante acontece, para Jung, na dimensão psíquica.

Existe o arquétipo materno; mas ele não é a imagem da sua mãe. Existe uma estrutura humana ligada à experiência de origem, nutrição, proteção, dependência, pertencimento e também sufocamento ou aprisionamento. Essa estrutura poderá aparecer como sua mãe, uma casa, uma caverna, a terra, uma igreja, uma floresta, uma deusa ou até uma empresa que promete proteger seus funcionários e não permite que ninguém vá embora.

O arquétipo encontra roupas diferentes para entrar em cada época. Por isso Jung escreveu que “o arquétipo é, em essência, um conteúdo inconsciente que se modifica ao tornar-se consciente e percebido” (Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (CW 9i, §6).

Essa frase é fundamental. O arquétipo não chega puro até nós. Ele passa por nós. Pela nossa cultura, pela nossa história, pelo temperamento de cada um, por cada corpo, pelas imagens disponíveis no nosso tempo.

Talvez um homem medieval sonhasse que estava perdido em uma floresta. Você pode sonhar que perdeu o sinal do GPS numa cidade desconhecida. A experiência psíquica da desorientação pode ser semelhante, mas a linguagem mudou.

Por que o inconsciente coletivo aparece nos sonhos?

Talvez você já tenha passado por uma situação aparentemente banal: durante semanas tenta resolver racionalmente um problema e não consegue. Então, à noite, o problema reaparece completamente transformado: no sonho você está tentando atravessar uma ponte quebrada.

É isso que os sonhos fazem tantas vezes: retiram uma experiência da linguagem literal e a recolocam na linguagem da imagem. Na perspectiva de Jung, os sonhos podem revelar aspectos da situação psíquica que a consciência não está conseguindo perceber.

Às vezes essa correção acontece num nível muito pessoal: você se considera perfeitamente seguro, mas passa várias noites sonhando que esqueceu documentos, perdeu o trem ou não consegue encontrar sua casa. Talvez haja uma insegurança que sua atitude consciente não esteja reconhecendo.

Em outros momentos, porém, o problema pessoal toca uma questão humana muito mais antiga. Uma separação amorosa pode constelar o abandono. A saída dos filhos de casa pode constelar imagens de morte e renascimento. Uma mudança profissional pode aparecer como uma travessia marítima. O envelhecimento pode trazer sonhos com reis feridos, casas antigas, crianças, túmulos ou árvores.

Quando isso acontece, a experiência continua sendo sua, mas deixa de ser somente sua. E existe algo profundamente consolador nisso, embora o inconsciente coletivo esteja longe de ser sempre reconfortante. Sua crise pode ter começado na terça-feira passada. Mas a experiência humana que existe dentro dela talvez tenha milhares de anos.

O mito não decifra o sonho. Ele o amplia

Você provavelmente já viu interpretações assim: “Sonhar com cobra significa traição.”; “Água representa emoções.”; “Casa é sempre a mente.”; “Sonhar com morte significa transformação.” Esse tipo de fórmula é sedutor porque elimina rapidamente a incerteza. Contudo, também tende a empobrecer o sonho

Uma serpente pode ter ressonâncias arquetípicas intensas: perigo, renovação, sexualidade, cura, veneno, sabedoria, vida instintiva. Serpentes aparecem em tradições religiosas, mitológicas e médicas há milênios. Mas qual serpente? Onde estava? O que fazia? Como você se sentia? Você gosta ou tem horror a cobras? A serpente atacava? Dormia? Trocava de pele? Protegia alguma coisa?

A imagem coletiva não elimina a experiência individual. Ela precisa atravessá-la. É justamente por isso que Jung distingue o arquétipo de sua representação concreta. Em suas obras sobre arquétipos, aparecem figuras como mãe, criança, espírito, renascimento e trickster, sempre com múltiplas expressões culturais e psicológicas, não como uma tabela fixa de significados.

O símbolo verdadeiro nunca fica completamente esgotado por uma definição. Se fica, provavelmente deixou de ser símbolo e virou sinal.

Talvez o sonho não esteja falando apenas sobre você

Aqui existe uma possibilidade ainda mais interessante. Nossa época insiste que devemos compreender tudo psicologicamente em termos individuais. Minha ansiedade. Meu trauma. Minha carreira. Meu relacionamento. Minha autoestima. Minha história. Tudo termina no pronome possessivo.

Mas e se alguns sofrimentos individuais forem também lugares em que uma questão coletiva está tentando tornar-se consciente? Pense no número de pessoas que sonham repetidamente com enchentes, cidades desmoronando, perseguições, máquinas fora de controle, casas invadidas ou multidões sem rosto.

Seria precipitado afirmar que todos esses sonhos têm um significado coletivo. A situação pessoal continua sendo indispensável para compreendê-los. Ainda assim, a psicologia de Jung nos obriga a considerar que nosso sonho pode também falar de algo coletivo.

O universal pode ser a parte mais íntima de você

Essa é uma das ideias mais paradoxais da psicologia analítica. Aquilo que existe em você e pertence à humanidade inteira pode ser vivido como alguma coisa profundamente íntima.

Pense numa mãe segurando pela primeira vez um filho recém-nascido. Milhões de mulheres viveram essa cena. Pense no luto. Nada é mais universal do que perder alguém que amamos. E talvez nada seja experimentado de forma tão pessoal. O fato de uma experiência pertencer à humanidade não diminui sua singularidade, mas dá profundidade a ela.

Talvez seja esse um dos sentidos mais belos do inconsciente coletivo: descobrir que algumas das regiões mais secretas da sua vida não começaram com você.

Quando você sonha com a travessia de um mar durante uma mudança importante, seu sonho é inteiramente seu. Mas a travessia é mais velha que você. Quando uma floresta aparece num momento de desorientação, aquela floresta pertence ao seu sonho. Mas seres humanos vêm entrando simbolicamente em florestas há muito tempo para representar aquilo que acontece quando o caminho conhecido desaparece.

Quando você encontra uma velha misteriosa, uma criança abandonada, um animal que fala ou uma casa desconhecida, talvez esteja diante de uma composição absolutamente particular feita com temas que a imaginação humana conhece há milênios.

Há também um perigo em tudo isso

Ideias arquetípicas fascinam. E justamente por isso exigem certo cuidado. É possível olhar para qualquer sonho impressionante e decidir que recebemos uma mensagem extraordinária do universo, que somos protagonistas de uma missão especial ou que determinada figura onírica anunciou literalmente alguma coisa que acontecerá.

Contudo, um sonho pode possuir enorme força simbólica sem ser profético. Pode ser numinoso sem ser sobrenatural. Pode tocar uma camada coletiva da psique sem transformar o sonhador em alguém escolhido para alguma missão grandiosa.

Aliás, imagens arquetípicas podem ser tão poderosas que o problema às vezes não é compreendê-las pouco, mas identificar-se demais com elas. O ego gosta de apropriar-se do que é grande. O herói deixa de ser uma imagem psíquica e eu passo a acreditar que Eu sou o herói. A velha sábia deixa de representar uma possibilidade interior e eu concluo que finalmente sei o que ninguém sabe.

O inconsciente coletivo amplia a experiência humana, mas também pode inflar nossa importância se esquecemos que somos apenas uma das vidas através das quais essas imagens passam.

Desejo bons sonhos para você!

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Sobre a autora

Giane é psicóloga com mais de 25 anos de experiência em atendimento clínico. Através do trabalho analítico, auxilia cada pessoa a compreender sua singularidade, superar desafios, trabalhar com áreas menos desenvolvidas da personalidade e integrar aspectos inconscientes, especialmente através da interpretação dos sonhos.

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