Quando os pesadelos merecem atenção clínica

Recentemente, uma pessoa me contou que, há algumas semanas, começou a ter pesadelos quase todas as noites. Antes, lembrava dos sonhos apenas de vez em quando. Agora acorda assustada e demora a voltar a dormir.

O que fazer com essa mudança? Será que basta perguntar pelo significado das imagens? Ou será preciso também investigar o que está acontecendo na vida da pessoa? Perguntar sobre o sono, a saúde e o estado emocional? Sim, tudo isso e talvez muito mais.

Na prática clínica, essas perguntas podem caminhar juntas. Um sonho pode ser importante pelo que expressa simbolicamente e também pelo fato de ter surgido em determinado momento da vida. Às vezes, é a própria mudança no modo de sonhar que pede atenção antes de qualquer interpretação.

Isso não significa que os sonhos sempre forneçam diagnósticos ou anunciem acontecimentos futuros. Significa que eles fazem parte da experiência de uma pessoa e que mudanças persistentes nessa experiência podem abrir perguntas clinicamente relevantes.

O olhar junguiano começa pelo contexto

Para Jung, interpretar um sonho não era procurar o significado fixo de cada imagem. Era necessário conhecer a situação da pessoa, suas associações com as imagens do sonho e sua atitude consciente diante da vida. Uma cobra, uma casa escura ou uma figura ameaçadora não significam a mesma coisa para todos os sonhadores!

Jung também pensava nos sonhos como possíveis compensações da atitude consciente: eles poderiam trazer à cena algo pouco reconhecido durante o dia. Em seus escritos, discutiu ainda uma função prospectiva, pela qual o sonho esboçaria possibilidades de desenvolvimento psíquico. Parece bem complicado, mas com o tempo e a prática, entendemos melhor. “Prospectiva”, nesse sentido, não quer dizer previsão literal de fatos. Trata-se de uma hipótese sobre a direção que um processo interior pode estar tomando. O próprio cuidado de Jung com o contexto impede que uma imagem seja convertida apressadamente em certeza. Aliás, sempre digo que uma das coisas que devemos abandonar quando o assunto é interpretação dos sonhos é a certeza.

Há, porém, outra dimensão da escuta que merece espaço. Antes de perguntar “o que significa esse símbolo?”, podemos perguntar: “O que mudou nos meus sonhos? E o que mais mudou na minha vida?”.

Pesadelos que se tornam frequentes, medo de dormir, alterações acentuadas do sono ou movimentos durante um sonho podem trazer informações que uma interpretação exclusivamente simbólica deixaria de lado.

Pesadelos frequentes

Um pesadelo ocasional não é, por si só, motivo para suspeitar de um problema. Mas quando os pesadelos se repetem, aumentam de intensidade, provocam medo de dormir ou afetam o dia seguinte, vale investigar.

Na clínica, interessa saber quando os pesadelos começaram, se houve alguma mudança recente, como a pessoa se sente ao despertar e se está evitando dormir. Também importa perguntar por acontecimentos traumáticos, insônia, piora do humor e outras fontes de sofrimento.

Sonhos aflitivos relacionados a um acontecimento traumático integram os aspectos considerados na avaliação do transtorno de estresse pós-traumático. Isso não significa que todo pesadelo após uma experiência difícil indique TEPT. É preciso observar também outros sintomas, sua duração e o impacto na vida da pessoa.

A experiência onírica pode assumir formas diferentes. Às vezes, a situação traumática parece voltar de maneira reconhecível. Em outras, aparecem cenas que não reproduzem o acontecimento, mas carregam sensações semelhantes: ameaça, impotência, aprisionamento.

A escuta simbólica pode enriquecer a compreensão desse material. Ao mesmo tempo, é importante perceber se o sonho está acompanhado de sofrimento persistente, evitação do sono ou prejuízo durante o dia. Nesses casos, o pesadelo merece atenção como parte do cuidado, além de seu possível significado. Na minha experiência clínica, todos os pacientes que buscaram atendimento devido a pesadelos frequentes tiveram uma mudança no padrão dos sonhos logo que começaram a dar atenção a eles e começaram a interpreta-los.

Outras condições também podem interferir no sono e nos sonhos. Mudanças de medicação, por exemplo, podem alterar a frequência com que uma pessoa se lembra deles. Distúrbios respiratórios do sono podem coexistir com pesadelos. Se alguém sonha repetidamente com dor, doença ou uma parte do corpo, vale perguntar: “Você tem sentido algo nessa região quando está acordado?” Se houver um sintoma físico, ele merece atenção pelos seus próprios sinais. O sonho pode favorecer essa conversa, mas não substitui uma avaliação médica.

Quando a pessoa movimenta o corpo durante o sonho

Há uma situação em que o comportamento durante o sono merece atenção especial: a pessoa grita, dá socos, chuta, cai da cama ou machuca a si mesma ou quem dorme ao lado enquanto parece atuar o que está sonhando.

Esses episódios podem ter diferentes causas. Uma possibilidade é o transtorno comportamental do sono REM, no qual a imobilidade muscular que normalmente acompanha essa fase do sono está alterada. O diagnóstico depende de avaliação especializada, geralmente com polissonografia, porque outras condições podem produzir manifestações parecidas. Quando o transtorno é confirmado e ocorre de forma isolada, pesquisas mostram uma associação importante com doenças neurológicas futuras, como Parkinson e demência. Isso não quer dizer que seja possível prever, a partir de um episódio, o diagnóstico futuro de uma pessoa.

Aqui, mais uma vez, importa distinguir a história do sonho do que aconteceu com o corpo durante o sono. Um sonho de luta pode ser explorado simbolicamente. Se a pessoa realmente se debateu e se feriu, esse acontecimento também precisa ser investigado.

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Sobre a autora

Giane é psicóloga com mais de 25 anos de experiência em atendimento clínico. Através do trabalho analítico, auxilia cada pessoa a compreender sua singularidade, superar desafios, trabalhar com áreas menos desenvolvidas da personalidade e integrar aspectos inconscientes, especialmente através da interpretação dos sonhos.

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